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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Nem nas buscas de um Google


[para ler ao som de A Sorta Fairytale, da Tori Amos]


Deve ter mais ou menos uns seis meses que estou trabalhando no roteiro de um curta. E já estou bem adiantado no processo, de repente até conseguiria começar a filmar já no fim de semana. Já tenho minha heroína, se é que podemos chamá-la assim, pronta no papel. Já tenho a heroína esperando para se preparar na vida real. Já bolei a trilha, as locações e já sei até como vou editar esse curta depois, a linha de tempo que usarei, onde vão acontecer os cortes. Já li que vários diretores entravam em estúdio assim, com tudo pronto, incluindo os cartazes de divulgação do filme pronto. O Stanley Kubrick era um deles, se não me engano.

Mas há um ponto do meu roteiro que ainda não me agrada. É um ponto chave na narrativa, onde eu faço a atriz principal, protagonista e única personagem pender para um lado bom ou ruim. Não o lado bom e ruim da força, mas um lado onde ela saíra menos ferida e um lado onde ela quiçá deixará o filme viva. Não digo viva no sentido de que ela talvez vá morrer em algum ponto da narrativa, mas um viva mais dramática, no sentido de que sim, ela saíra com vida de cena, mas talvez fosse melhor que não.

Desde que esse roteiro surgiu na minha cabeça, há não sei quanto tempo, esse ponto na narrativa sempre me foi obscuro. E hoje, terminando de esquematizar um possível processo de filmagem, me ocorreu que toda vez que eu pegava esse roteiro para trabalhá-lo, depois de já ter empacado nesse ponto específico, eu pendia para um dos lados de acordo com meu estado de espírito naquele momento. Se eu estivesse bem, de bem, feliz, tudo se direcionava para o salvamento da minha heroína. Não que ela vá terminar o curta numa posição privilegiada, mas também não posso dizer que aquele sentimento dela é de tristeza. Entretanto, se eu não estivesse nos meus melhores dias, a heroína com certeza seria direcionada para o ponto do sofrimento.

E me pareceu estranho perceber isso agora porque, de forma alguma, essa personagem tem alguma intenção de ser autobiográfica. Ok, não posso dizer que ela é totalmente desapegada ao que sou, até porque partiu de mim a criação dela, então nem que seja alguma experiência ou vontade minha ela tem. O que me deixa mais intrigado é que, para qualquer lado que ela for, eu tenho certeza que vai ser o melhor destino para essa personagem. Mesmo se ela partir para um lado ruim e eu levar em conta toda a consideração que tenho por essa personagem, que viveu comigo por todo esse tempo.

Então eu comecei a fazer paralelos com as pessoas que, por algum momento, tiveram no mínimo uma consideração da minha parte. Algumas ainda estão comigo e me são muito queridas. Mas a maioria se perdeu, algumas eu sei que foram para um caminho legal, seguiram suas vidas, outras são grandes incógnitas, eu não sei o que fazem, onde moram, não sei exatamente mais nada. E me ocorreu que a vida é sim um roteiro que a gente vai escolhendo os destinos, como aqueles livros que líamos quando crianças, que ao final de cada página você escolhia para onde a personagem iria. Lembro de um que li quando tinha uns onze anos e que nunca consegui chegar ao final que todos os meus amigos chegaram. Eles encontraram o tesouro, mas eu sempre ficava perdido numa floresta para todo o sempre ou terminava preso numa caixa em formato de coração. Uma forma menos trágica de anunciar que você "perdeu ou está perdendo alguma coisa, morna e ingênua, que vai ficando no caminho..."

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